E imagine, soube-o das melhores fontes, está de fato bem doente, em perigo de vida! Um amigo de seis anos! Ah, meu Aleksiéi Ivânovitch, digo-lhe e repito que, em semelhante disposição, a gente às vezes tem realmente vontade de sumir pela terra adentro; noutros momentos, parece, seríamos capazes de abraçar alguém sem cerimônia, sobretudo alguma dessas, por assim dizer, antigas testemunhas, algum desses cúmplices, e unicamente para chorar em sua companhia, isto é, para mais nada, absolutamente, a não ser chorar!...
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quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Eterno Marido - Velhos amigos
Eterno Marido - Vaidade
Já dissemos que a vaidade assumira nele certa forma peculiar. Era justo. Em certos momentos (raros, aliás), chegava a uma tal indiferença, que não se envergonhava, até, do fato de não possuir carruagem própria, de se arrastar a pé de uma repartição a outra, de ter se descuidado um pouco da indumentária; e isso chegou a tal ponto que, se um dos seus velhos conhecidos o medisse na rua com um olhar zombeteiro, ou simplesmente se lembrasse de não o reconhecer, ter-lhe-ia sobrado, realmente, altivez para não fazer sequer uma careta.
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Eterno marido - Não-confiável
E quantas vezes ele próprio, erguendo-se do leito de manhã, começava a envergonhar-se das ideias e sentimentos que tivera durante a noite de insônia! (Nos últimos tempos, sempre sofria de insônia.) Notara, havia muito, que se estava tornando extraordinariamente desconfiado em tudo, tanto nas coisas importantes como nas miúdas, e, por isso, resolvera confiar o menos possível em si mesmo.
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Eterno Marido - Quase quarenta
Agora, com a aproximação dos quarenta, a luminosidade e o ar bondoso quase se apagaram nesses olhos, já rodeados de rugas ligeiras; por outro lado, surgiram neles o cinismo de um homem cansado e de moral não muito elevada, a esperteza, mais frequentemente, um certo ar de zombaria e ainda um novo matiz, que não existia anteriormente: uns longes de dor e tristeza, de uma tristeza distraída, como que sem objeto, mas intensa. Essa tristeza manifestava-se sobretudo quando estava sozinho. E é estranho que esse homem barulhento, alegre e distraído, que havia apenas dois anos ainda contava com tanto espírito histórias tão engraçadas, nada apreciasse mais, agora, do que ficar absolutamente só.
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
A Senhoria - Tutela II
Dê a ele, ao homem fraco, a liberdade -- ele mesmo a atará e a trará de volta. A um coração tolo, nem a liberdade de nada serve!
Memórias do subsolo - Tutela
Bem, experimentai, por exemplo, dar-nos mais independência, desamarrai a qualquer de nós as mãos, alargai o nosso círculo de atividade, enfraquecei a tutela e nós... eu vos asseguro, no mesmo instante pediremos que se estenda novamente sobre nós a tutela.
Memórias do subsolo - Covardia II
Um homem decente e cultivado não pode ser vaidoso sem uma ilimitada exigência em relação a si mesmo e sem se desprezar, em certos momentos, até o ódio. Mas, quer desprezando, quer colocando as pessoas acima de mim, eu baixava os olhos diante de quase todos que encontrava.
Memórias do subsolo - Covardia
É possível que eu fosse o único em toda a repartição a ter continuamente a impressão de ser um covarde e um escravo, e talvez tivesse esta impressão justamente por que era cultivado. Mas não se tratava apenas de impressão; isto se dava na realidade: eu era um covarde e um escravo.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Memórias do subsolo - Crítica do leitor
-- Mas não é uma vergonha, não é uma humilhação?! -- talvez me digais, balançando com desdém a cabeça. --- Está ansiando pela vida, mas resolve os problemas com um emaranhado lógico. E como são importunas, como são insolentes as suas saídas, e, ao mesmo tempo, como o senhor tem medo! Afirma absurdos e se satisfaz com eles; diz insolências, mas sempre se assusta com elas e pede desculpas. Assegura não temer nada e, ao mesmo tempo, busca o nosso aplauso. Garante estar rangendo os dentes e, simultaneamente, graceja, para nos fazer sorrir. Sabe que seus gracejos não têm espírito, mas, ao que parece, está muito satisfeito com a sua qualidade literária. É possível que tenha sofrido realmente; todavia, não respeita um pouco sequer o seu próprio sofrimento. No senhor há verdade, mas não há pureza; por motivo da mais mesquinha vaidade, traz a sua verdade à mostra, conduzindo-a para ignomínia, para a feira... Realmente, quer dizer algo, no entanto, por temor, oculta a sua palavra derradeira, porque não tem suficiente decisão para dizê-la, mas apenas uma assustada impertinência. Vangloria-se da sua consciência, mas, na realidade, apenas vacila, pois, embora o seu cérebro funcione, o seu coração está obscurecido pela perversão, e, sem um coração puro, não pode haver consciência plena, correta. E que capacidade de importunar, que insistência, como careteia! Mentira, mentira, mentira!
Memórias do subsolo - Por fim, é isso
O fim dos fins, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é a inércia consciente! Pois bem, viva o subsolo! Embora eu tenha dito realmente que invejo o homem normal até a derradeira gota da minha bílis, não quero ser ele, nas condições que o vejo (embora não cesse de invejá-lo. Não, não, em todo caso, o subsolo é mais vantajoso!) Ali, pelo menos, se pode... Eh! mas estou mentindo agora também. Minto porque eu mesmo sei, como dois e dois, que o melhor não é o subsolo, mas algo diverso, absolutamente diverso, pelo qual anseio, mas que de modo nenhum hei de encontrar! Ao diabo o subsolo!
Eis o que seria melhor mesmo: que eu próprio acreditasse, um pouco que fosse, no que acabo de escrever. Juro-vos, meus senhores, que não creio numa só palavrinha de tudo quanto rabisquei aqui! Isto é, talvez eu creia, mas, ao mesmo tempo, sem saber por quê, sinto e suspeito estar mentindo como um desalmado.
Eis o que seria melhor mesmo: que eu próprio acreditasse, um pouco que fosse, no que acabo de escrever. Juro-vos, meus senhores, que não creio numa só palavrinha de tudo quanto rabisquei aqui! Isto é, talvez eu creia, mas, ao mesmo tempo, sem saber por quê, sinto e suspeito estar mentindo como um desalmado.
Memórias do subsolo - Justiça
Já foi dito: o homem se vinga porque acredita que é justo. Quer dizer que ele encontrou a causa primeira, o fundamento: a justiça. Isto é, como ele está tranquilizado por todos os lados, vinga-se calmamente e com êxito, convicto de que pratica uma ação honesta e justa
Memórias do subsolo - Homens diretos
Repito, repito com insistência: todos os homens diretos e de ação são ativos justamente por serem parvos e limitados. Como explicá-lo? Do seguinte modo: em virtude de sua limitada inteligência, tomam as causas mais próximas e secundárias pelas causas primeiras e, deste modo, se convencem mais depressa e facilmente que os demais de haver encontrado o fundamento indiscutível para a sua ação e, então, se acalmam; e isto é de fato o mais importante.
Memórias do subsolo - Camundongo
O infeliz camundongo já conseguiu acumular, em torno de si, além da torpeza inicial, um infinidade de outras torpezas, na forma de interrogações e dúvidas; acrescentou à primeira interrogação tantas outras não resolvidas que, forçosamente, se acumula ao redor dele certo líquido repugnante e fatídico, certa lama fétida, que consiste nas suas dúvidas, inquietações e, finalmente, nos escarros -- que caem sobre ele em profusão -- dos homens de ação agrupados solenemente ao redor, na pessoa de juízes e ditadores, e que riem dele a mais não poder, com toda a capacidade das suas goelas sadias. Naturalmente, resta-lhe sacudir a patinha em relação a tudo e, com um sorriso de fictício desprezo, no qual ele mesmo não acredita, esgueirar-se vergonhosamente para a sua fendazinha. Ali, no seu ignóbil e fétido subsolo, o nosso camundongo, ofendido, machucado, coberto de zombarias, imerge logo num rancor frígido, envenenado e, sobretudo, sempiterno. Há de lembrar, quarenta anos seguidos, a sua ofensa, até os derradeiros e mais vergonhosos pormenores; e cada vez acrescentará por sua conta novos pormenores, ainda mais vergonhosos, zombando maldosamente de si mesmo e irritando-se com a sua própria imaginação. Ele próprio se envergonhará dessa imaginação, mas, assim mesmo, tudo lembrará, tudo examinará, e há de inventar sobre si mesmo fatos inverossímeis, com o pretexto de que também estes poderiam ter acontecido, e nada perdoará.
Memórias do subsolo - Inteligência
Considerei-me, continuamente, mais inteligente que todos à minha volta, e às vezes -- acreditam? -- tinha até vergonha disso. Pelo menos, a vida toda olhei de certo modo para o lado e nunca pude fitar as pessoas nos olhos.
Memórias do subsolo - Consciência
Tenho agora vontade de vos contar, senhores, queirais ouvi-lo ou não, por que não consegui tornar-me sequer um inseto. Vou dizer-vos solenemente que, muitas vezes, quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui digno. Juro-vos, senhores, que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa. Para o uso cotidiano, seria mais do que suficiente a consciência humana comum, isto é, a metade, um quarto a menos da porção que cabe a um homem instruído do nosso infeliz século dezenove e que tenha, além disso a infelicidade de habitar Petersburgo, a cidade mais abstrata e meditativa de todo o globo terrestre.
Memórias do subsolo - Quarenta anos
Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo os meus dias em meu canto, incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso -- que para nada serve -- de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem. Sim, um homem inteligente do século dezenove precisa e está moralmente obrigado a ser uma criatura eminentemente sem caráter e uma pessoa de caráter, de ação, deve ser sobretudo limitada. Esta é a convicção dos meus quarenta anos.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Noites Brancas - Velhice
E me pergunto: onde é que estão os seus sonhos? E balançando a cabeça, digo: como os anos voam depressa! E novamente me pergunto: mas o que você fez dos seus anos? Onde sepultou a sua melhor época? Você viveu ou não? Veja, digo a mim mesmo, veja como o mundo está ficando frio. Ainda passarão anos, e atrás deles virá a solidão sombria, virá a velhice trêmula com uma bengala, e atrás dela a tristeza e a melancolia. O seu mundo fantástico empalidecerá, os seus sonhos ficarão paralisados, sem vida e cairão como as folhas amarelas das árvores...
Noites Brancas - Melhores anos
E agora sei mais do que nunca que perdi inutilmente todos os meus melhores anos! Agora eu sei e o sinto ainda mais dolorosamente por ter tal consciência, porque o próprio Deus me enviou a senhorita, o meu bom anjo, para me dizer e provar isso. Agora, quando estou sentado ao seu lado e falo consigo, tenho medo de pensar no futuro, pois no futuro está novamente a solidão, novamente esta vida inútil cheirando a mofo; e com o quê vou sonhar se, desperto, fui tão feliz a seu lado?
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