quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aurora - Confiança na moral

- Foi então que empreendi uma coisa que não podia ser para todos: desci para as profundezas; passei a perfurar o chão, comecei a examinar e a minar uma velha confiança sobre a qual, há alguns milhares de anos, nós, os filósofos, temos o costume de construir, como sobre o terreno mais firme -- e reconstruir sempre, embora até hoje toda construção tenha ruído: comecei a minar a nossa confiança na moral. (pg. 14)

Aurora - Subsolo

Neste livro encontra-se agindo um ser "subterrâneo" que cava, perfura e corrói. Ver-se-á, desde que se tenha olhos para tal trabalho nas profundezas, como avança lentamente, com circunspecção e com uma suave inflexibilidade, sem que se perceba em demasia a angústia que acompanha a privação prolongada de ar e de luz; poder-se-ia até julgá-lo feliz por realizar esse trabalho obscuro. Não parece que alguma fé o guie, que alguma consolação o compense? Talvez queira ter para ele uma longa obscuridade, coisas que lhe sejam próprias, coisas incompreensíveis, secretas, enigmáticas, porque sabe o que terá em troca: sua manhã só para ele, sua redenção, sua aurora?... Certamente voltará: não lhe perguntem o que procura lá em baixo; ele mesmo o dirá, esse Trofônio, esse ser de aparência subterrânea, uma vez que de novo se tenha "tornado homem". Costuma-se esquecer inteiramente o silêncio quando se esteve soterrado tanto tempo como ele, só tanto tempo como ele. (pg. 13)

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Siddhartha - Amar?

Posso amar uma pedra, Govinda, e também uma árvore ou um pouco de casca. Tudo isto são coisas, coisas que nós podemos amar. Mas não posso amar palavras. É por isso que não aprecio as doutrinas, não têm dureza ou moleza, não têm cores, não têm arestas, não têm cheiro, não têm gosto, nada têm senão palavras. Talvez seja esto que te impede de encontrares a paz, talvez sejam as palavras em excesso. Porque também libertação e virtude, também Samsara e Nirvana são meras palavras, Govinda. Nada existe que seja o Nirvana; apenas existe a palavra Nirvana. (pg. 148)

Siddhartha - As palavras

As palavras não fazem bem ao sentido oculto, tudo o que é igual torna-se sempre um pouco diferente quando é dito em voz alta, um pouco falseado, um pouco louco -- sim, e também isto é muito bom e me agrada bastante, também com isto estou de acordo, que aquilo que é tesouro e sabedoria para uma pessoa, seja sempre uma loucura para as restantes. (pg 147)

Siddhartha - Amor à vida

Por isso tudo que existe me parece bom, a morte e a vida, o pecado e a santidade, a sensatez e a loucura, tudo é necessário dessa maneira, tudo necessita apenas do meu acordo, da minha boa vontade, da minha afetuosa compreensão; assim tudo é bom para mim, pode apenas encorajar-me, nunca me pode prejudicar. Senti no meu corpo e na minha alma que precisava muito do pecado, precisava da luxúria, da ambição e da vaidade, precisava do desespero mais ultrajante, para aprender a não lhes resistir, para aprender a amar o mundo, para não mais o comparar com qualquer outro mundo por mim desejado ou imaginado, com uma forma de perfeição concebida por mim, mas sim para o deixar ser como é, para amá-lo e sentir-me feliz por lhe pertencer. Isto, Govinda, são algumas das ideias que me acorreram ao espírito. (pg. 146)

Siddhartha - Procurar e encontrar

-- Quando alguém procura -- respondeu Siddhartha -- pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisas que ele procura, que não permitam que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objetivo, porque está possuído por esse objetivo. Procurar significa ter um objetivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objetivos. Tu, Venerável, és talvez um homem à procura, pois, perseguindo o teu objetivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos. (pg. 142)

Siddhartha - Vulgares

Lentamente, por entre a sua riqueza crescente, o próprio Siddhartha adquiriu alguns traços das pessoas vulgares, algo da sua ingenuidade e da sua ansiedade. E no entanto invejava-as, invejava-as tanto mais quanto mais se parecia com elas. Invejava a única coisa que lhe faltava e que elas tinham, a importância que atribuíam às suas vidas, a intensidade das suas alegrias e medos, a angustiada mas doce ventura de sua eterna capacidade para amar. Estas pessoas estavam sempre apaixonadas, por si mesmas, por mulheres, pelos seus filhos, pela honra ou pelo dinheiro, por planos ou por esperanças. Mas fora isto que ele não aprendera com elas, exatamente isto, esta alegria infantil, esta loucura infantil; aprendera com elas apenas as coisas desagradáveis que ele próprio desprezava. (pg. 83)