terça-feira, 9 de setembro de 2014

Siddhartha - Procurar e encontrar

-- Quando alguém procura -- respondeu Siddhartha -- pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisas que ele procura, que não permitam que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objetivo, porque está possuído por esse objetivo. Procurar significa ter um objetivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objetivos. Tu, Venerável, és talvez um homem à procura, pois, perseguindo o teu objetivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos. (pg. 142)

Siddhartha - Vulgares

Lentamente, por entre a sua riqueza crescente, o próprio Siddhartha adquiriu alguns traços das pessoas vulgares, algo da sua ingenuidade e da sua ansiedade. E no entanto invejava-as, invejava-as tanto mais quanto mais se parecia com elas. Invejava a única coisa que lhe faltava e que elas tinham, a importância que atribuíam às suas vidas, a intensidade das suas alegrias e medos, a angustiada mas doce ventura de sua eterna capacidade para amar. Estas pessoas estavam sempre apaixonadas, por si mesmas, por mulheres, pelos seus filhos, pela honra ou pelo dinheiro, por planos ou por esperanças. Mas fora isto que ele não aprendera com elas, exatamente isto, esta alegria infantil, esta loucura infantil; aprendera com elas apenas as coisas desagradáveis que ele próprio desprezava. (pg. 83)

Siddhartha - Objetividade

-- Tu quiseste. Vê, Kamala: quando atiras uma pedra à água, ela procura o caminho mais rápido para o fundo. Assim é quando Siddhartha tem um objetivo, uma intenção. Siddhartha nada faz, espera, pensa, jejua, mas passa pelas coisas do mundo como a pedra passa pela água, sem fazer nada, sem se mexer; ele é atraído e deixa-se cair. O seu objetivo arrasta-o, pois ele não admite na sua alma nada que pudesse interpor-se entre ele e o seu objetivo. Foi isto que Siddhartha aprendeu com os samanas. É a isto que os ingênuos chamam encantamento, pensando que é obra de demônios. Os demônios nada fazem, não existem demônios. Todos podem dominar estes encantamentos, todos podem alcançar a sua alma, desde que saibam pensar, esperar e jejuar. (pg 67)

Siddhartha - Lar

Siddhartha permaneceu de pé; durante um instante, durante um suspiro, o seu coração geou, sentiu-o gelar no seu peito como um pequeno animal, um pássaro ou uma lebre, ao ver quão sozinho estava. Durante anos não tivera lar e não o sentira. Só agora o sentia. Sempre, mesmo durante a meditação mais distante, fora filho de seu pai, fora brâmane, de alta condição, um erudito. Agora era apenas Siddhartha, o despertado, e nada mais. Respirou fundo, e por um instante sentiu frio e arrepiou-se. Ninguém estava tão sozinho como ele. Não era um nobre que pertencia à nobreza ou um artesão que pertencia a um grupo de artesãos e entre eles encontrava abrigo, partilhava a sua vida, falava a sua língua. Não era um brâmane, que se contava entre os brâmanes e com eles vivia, não era um asceta que encontrava abrigo na condição dos samanas, nem o mais isolado dos eremitas era único e solitário, também ele pertencia a uma condição, que era a sua pátria. Govinda tornara-se monge e milhares de outros monges eram seus irmãos, vestiam-se como ele, tinham as mesmas crenças, falavam a sua língua. Mas ele, Siddhartha, onde pertencia? Que vida poderia partilhar? Que língua poderia falar? (pg. 49)

Siddhartha - Doutrinas

Conseguiste-o pela tua própria procura, pelo teu próprio pé, através da reflexão, da meditação, do conhecimento, da revelação. Nada conseguiste através de doutrinas! E-- é isto o que eu penso, ó Sublime -- ninguém conseguirá a libertação através de doutrinas! Com ninguém, ó Venerável, conseguirás partilhar e dizer o que te aconteceu na hora da tua iluminação! Os ensinamentos do Buda iluminado contém muitas coisas, ensinam muitas coisas, a viver com honradez e a evitar o mal. Mas uma coisas esses ensinamentos tão claros, tão veneráveis, não contém: não contém o segredo daquilo que o Sublime viveu, ele, o único entre centenas de milhares. Foi isto que eu pensei e compreendi ao escutar a tua doutrina. Esta é a razão pela qual prossigo a minha peregrinação -- não para procurar uma doutrina diferente e melhor, pois sei que tal não existe, mas para abandonar todas as doutrinas e todos os mestres, para alcançar sozinho o meu objetivo ou para morrer. (pg. 41)

Siddhartha - Mestres

Talvez te lembres também das outras coisas que de mim ouviste, que estou desconfiado e cansado de ensinamentos e de aprendizagens, que pouco creio nas palavras que provêm dos mestres. Mas continuo pronto, meu caro, a escutar essa doutrina -- embora acredite que todo o coração que já provamos o seu melhor fruto. (pg 31)

Siddhartha - Meditação alcóolica

E Siddhartha disse baixo, como se falasse sozinho:
-- O que significa a meditação? O que significa deixar o corpo? O que significa jejuar? O que significa suspender a respiração? É escapara ao Eu, é uma breve fuga ao sofrimento do ser, é um breve alheamento da dor e da falta de sentido da vida. Esta fuga, este breve alheamento, encontra-o o boieiro nos albergues, quando bebe algumas taças de vinho de arroz ou de leite de coco fermentado. Nessa altura já não sente o seu Eu, já não sente o sofrimento da vida, encontra um breve alheamento. Encontra, entorpecido pelas suas taças de vinho de arroz, o mesmo que Siddharta e Govinda encontram, quando se afastam do seu corpo através de exercícios demorados, quando se detêm na negação do Eu. É isto, Govinda. (pg. 25)